Grifar o livro ajuda a estudar? O que diz a ciência

Você passa o marca-texto na página, vê o parágrafo ficar amarelo e sente que aprendeu. Só que essa sensação engana: na maioria das vezes, grifar não fixa nada — ele só marca por onde os seus olhos passaram. O perigo é silencioso. Enquanto o candidato acha que está estudando, o tempo escorre e a matéria continua sem entrar. Você acha que grifar é estudar, mas, sozinho, ele é um dos jeitos mais fracos de aprender.
Isso não quer dizer jogar o marca-texto fora. Quer dizer entender por que ele engana e o que colocar no lugar para o mesmo tempo render de verdade.
O que a ciência mostra sobre grifar
Em 2013, um grupo liderado pelo psicólogo John Dunlosky, da Kent State University, revisou 10 das técnicas de estudo mais usadas por estudantes e publicou o resultado na revista científica Psychological Science in the Public Interest. Grifar, sublinhar e reler o material ficaram na categoria de baixa utilidade — a nota mais baixa da lista. No topo, com alta utilidade, ficaram testar-se (estudar por perguntas) e espalhar a revisão ao longo do tempo.
O problema não é o marca-texto em si, é o excesso. Num estudo clássico de Fowler e Barker, publicado em 1974 no Journal of Applied Psychology, quanto mais texto os participantes grifavam, pior era o desempenho na prova. Quem destacava uma ou duas frases por parágrafo se saía melhor do que quem pintava a página inteira de amarelo. Grifar tudo é quase o mesmo que não grifar nada: sem contraste, o cérebro não sabe o que é importante.
E há um detalhe que explica por que quase ninguém percebe o problema: é o método que todo mundo usa. Numa pesquisa de Karpicke, Butler e Roediger publicada em 2009 na revista Memory, 83,6% dos estudantes disseram reler o material como estratégia de estudo, e só 11% disseram se testar. A maioria repete a técnica fraca justamente porque ela parece confortável — e confunde reconhecer o texto com saber a matéria.
Como grifar do jeito certo (e o que fazer depois)
O marca-texto não é vilão; ele só não pode ser o fim do estudo. Use-o para selecionar, não para memorizar:
- Leia o parágrafo inteiro antes de grifar. Só assim você sabe qual é a ideia principal — e não a primeira frase que pareceu bonita.
- Grife no máximo uma ideia por parágrafo. Se a página inteira ficou amarela, você não decidiu nada.
- Grife palavras-chave, não linhas inteiras. O objetivo é criar um mapa visual do essencial, não repintar o livro.
- Feche o livro e recupere de memória. Depois de grifar, tente lembrar o que estava ali sem olhar. É aí que o aprendizado acontece.
- Transforme o grifo em pergunta. Cada trecho destacado vira uma questão para você responder mais tarde.
O passo que muda o jogo é o quarto. Recuperar a informação de memória — o chamado efeito do teste — é o que a ciência aponta como uma das formas mais fortes de fixar matéria; por isso vale trocar parte do tempo de grifo por estudar por questões. Somando a isso uma revisão espaçada, como as técnicas reunidas em como revisar para concurso, o grifo deixa de ser um fim e vira só o começo. E quando você consegue explicar o trecho grifado com as suas palavras, como propõe o método Feynman, aí sim a matéria entrou.
| Jeito que engana | Jeito que fixa |
|---|---|
| Grifar já na primeira leitura | Ler tudo e grifar só a ideia central |
| Pintar parágrafos inteiros | Destacar palavras-chave |
| Reler o que está grifado | Fechar o livro e recuperar de memória |
| Parar no grifo | Transformar o grifo em pergunta |
Perguntas frequentes
Grifar o livro é errado?
Não. Grifar ajuda a organizar a leitura e a marcar o que é importante. O erro é parar por aí, achando que destacar já é aprender. Sozinho, o grifo tem baixa utilidade; combinado com testar-se, vira um bom ponto de partida.
Qual é a forma certa de grifar?
Leia o parágrafo inteiro antes, destaque no máximo uma ideia por parágrafo e prefira palavras-chave a linhas inteiras. Quanto menos você grifa, mais cada grifo significa — foi o que Fowler e Barker mostraram em 1974.
Reler a matéria também não funciona?
Reler dá a sensação de domínio porque o texto fica familiar, mas familiaridade não é memória. Na revisão de Dunlosky, reler ficou na mesma categoria de baixa utilidade que grifar. Recuperar de memória rende muito mais.
O que fazer no lugar de só grifar?
Troque parte do tempo por técnicas de alta utilidade: testar-se com questões, explicar a matéria em voz alta e espalhar as revisões ao longo dos dias. O grifo entra só como filtro do que vai virar pergunta depois.
O grifo que não vira pergunta é tempo perdido
O marca-texto dá um progresso visível e uma boa sensação — mas nenhum dos dois é aprendizado. Enquanto a página amarela cresce, o que fica na memória pode ser quase nada. Grife menos, teste-se mais, e o mesmo tempo de estudo começa a virar acerto na prova.



