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Desenhar para memorizar: rabiscar fixa mais que escrever

Equipe Revolução · 31 de agosto de 2026

Desenhar para memorizar: rabiscar fixa mais que escrever

Se você quer memorizar um conceito, faça um rabisco dele em vez de copiar a palavra várias vezes: pesquisas de memória mostram que desenhar o conteúdo fixa mais que reescrevê-lo, mesmo quando o desenho é feio e leva poucos segundos. Parece brincadeira de criança, e é aí que mora a armadilha. Você reescreve a definição três vezes, sente que "passou a limpo", e boa parte escorre até a revisão, enquanto um traço tosco de dez segundos teria grudado. O ganho existe, é grande, e quase ninguém colhe porque acha que desenho é perda de tempo ou coisa de quem sabe desenhar.

O que a ciência mostra sobre desenhar para lembrar

O estudo que deu nome ao fenômeno é de Jeffrey Wammes, Melissa Meade e Myra Fernandes, da Universidade de Waterloo (Canadá), publicado em 2016 na revista científica Quarterly Journal of Experimental Psychology. Em uma série de sete experimentos, os participantes recebiam uma lista de palavras simples, como "maçã", e tinham 40 segundos para cada uma: um grupo desenhava a palavra, o outro a reescrevia várias vezes. Depois de uma tarefa de distração, tinham 60 segundos para lembrar o máximo que conseguissem. Quem desenhou lembrou mais que o dobro de palavras do que quem escreveu. Os autores batizaram o achado de drawing effect, o efeito do desenho.

O detalhe que desarma a desculpa mais comum: não importa se você sabe desenhar. Quando os pesquisadores cortaram o tempo para apenas 4 segundos, mal dá para um rabisco, o desenho ainda vencia a escrita. Traço mal feito, boneco-palito, símbolo torto: o ganho vinha do ato de desenhar, não da qualidade da figura.

Não é um achado isolado. Em uma revisão publicada em 2018 na Current Directions in Psychological Science, os mesmos autores juntaram os estudos seguintes e concluíram que o efeito é robusto e aparece até em idosos e em pessoas que se dizem péssimas de desenho. A explicação deles é que desenhar reúne, num só gesto, três coisas que costumam vir separadas: você elabora o conceito (para desenhar, precisa entender), executa um movimento com a mão e cria uma imagem, e é essa costura que forma uma memória mais forte.

Por trás disso está uma ideia antiga da psicologia cognitiva: a teoria da dupla codificação, de Allan Paivio, da Universidade de Western Ontario, nos anos 1970. A memória trabalha com dois canais, um verbal (as palavras) e um visual (as imagens); uma informação guardada nos dois ao mesmo tempo tem o dobro de caminhos para ser puxada depois. É por isso que a gente lembra melhor de imagens do que de texto puro, e é exatamente essa segunda via que reescrever a palavra deixa vazia e o desenho preenche.

Como usar o desenho para estudar (sem saber desenhar)

Desenhar para estudar não é ilustrar o caderno com capricho; é traduzir a ideia em imagem rápida. E serve para muito mais matéria do que parece:

Em vez de... Faça um desenho rápido (10 a 30 segundos)
Reescrever a definição de um conceito Um símbolo ou cena tosca que represente a ideia
Copiar as fases de um processo (licitação, ação penal) Uma escada ou setas, um degrau para cada fase, na ordem
Decorar uma lista de princípios (como o LIMPE) Um ícone bobo para cada item que puxe a inicial
Reler o fluxo de "quem faz o quê" Caixas ligadas por setas, com o resultado no fim
Regravar uma relação de causa e efeito Duas figuras e uma seta: causa → consequência

Alguns hábitos fazem o desenho render de verdade:

  1. Troque a cópia pelo rabisco. Toda vez que se pegar reescrevendo algo só para "fixar", pare e desenhe o conceito em vez de copiá-lo.
  2. Desenhe a ideia, não a palavra bonita. O objetivo não é uma obra; é um símbolo que dispare a lembrança. Feio funciona.
  3. Junte desenho e palavra-chave. Escreva o termo e faça um pequeno desenho ao lado: é dupla codificação de propósito.
  4. Transforme processos em setas. Prazos, fases e fluxos grudam muito mais como um diagrama do que como uma frase corrida.
  5. Desenhe no lugar de grifar. Ao lado do parágrafo que importa, faça um ícone que resuma a ideia: dá menos página marcada e mais memória.
  6. Na revisão, cubra e refaça. Tampe o desenho e tente lembrar do conceito; depois tampe a palavra e redesenhe de cabeça. Vira teste ativo.

Duas ressalvas honestas. O desenho brilha para conceitos, processos e relações; para gravar a letra exata de um artigo de lei ele ajuda menos, e aí vale combinar com repetição espaçada. E ele não é a mesma coisa que o mapa mental: o mapa organiza um assunto inteiro em ramos, enquanto aqui você desenha cada conceito em si. As duas técnicas se somam bem. Como o ganho vem do gesto de criar à mão, ele anda junto do que a ciência mostra sobre escrita à mão ou digitação, e encaixa direto na sua rotina de flashcards, com um rabisco no lugar de mais uma linha de texto no verso.

Perguntas frequentes sobre desenhar para memorizar

Preciso saber desenhar para essa técnica funcionar?

Não. Nos estudos, o ganho apareceu mesmo com rabiscos toscos feitos em 4 segundos, e até entre pessoas que se diziam péssimas de desenho. O que fixa é o ato de transformar a ideia em imagem, não a qualidade do traço. Boneco-palito e símbolos tortos resolvem.

Desenhar não é mais lento do que reler a matéria?

É um pouco mais lento por item, mas rende mais por minuto de estudo: um desenho que faz você lembrar o dobro poupa releituras que não grudariam. Para conteúdo que vale a pena guardar, o tempo extra se paga na revisão e na hora da prova.

Funciona para todas as matérias de concurso?

Funciona melhor em conceitos, processos e relações: Direito, Administração, Atualidades, raciocínio lógico e biologia. Para decorar a letra exata de um artigo ou listas secas, use o desenho junto de revisão espaçada: o desenho fixa a ideia, a repetição fixa a palavra exata.

Melhor desenhar à mão ou no computador?

À mão, na maioria dos casos, porque o movimento de criar o traço faz parte do que fixa. Tablet com caneta serve; digitar o conceito, não: aí você perde justamente a parte motora e visual que dá o ganho.

Da próxima vez que for "passar a limpo" um conceito pela terceira vez, troque a cópia por um rabisco de dez segundos. Parece bobo, e é justamente por parecer bobo que quase ninguém faz, e deixa na mesa um dos ganhos de memória mais baratos que a pesquisa já mediu. Você gasta segundos a mais hoje para não descobrir, na frente da prova, que a definição caprichada não tinha grudado.

Última atualização: setembro de 2026.

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